• Mário Rocha

A zona do Carvalhido


Praça do Exército Libertador no início do séc XX. Fonte: etcetaljornal.pt

A zona do Carvalhido está localizada a norte da cidade próximo da VCI e do Hospital da Prelada.


No que a toponímia diz respeito, o nome Carvalhido advém de uma mata revestida, essencialmente, de carvalhos que se localizavam neste local. Situado nos arrabaldes, foi lugar de Casais (propriedades rurais, campos agrícolas) e, fundamentalmente, local de passagem de e para o Porto.


Após a vitória liberal das tropas de D. Pedro, este local passa a designar-se como Praça do Exército Libertador em homenagem aos “7500 bravos do Mindelo”, alcunha das tropas liberais, que pernoitaram neste espaço vindos do Mindelo em direção à cidade.

A propósito deste fato histórico de relevo, ao Carvalhido está diretamente associada a antiga estrada dos “9 irmãos”. Um caminho que ligava o centro do Porto (a partir da Porta do Olival pertencente à muralha Fernandina) a Vila do Conde seguindo depois até à Galiza. É importante referir este itinerário visto que se trata de um crucial acesso à cidade.


Vale a pena mencionar um conjunto significativo de pontos de interesse patrimonial e cultural da zona. Assim, começando por posicionarmos no cruzamento da Av. de França e respetiva ligação à Av. Conselho da Europa com a rua da Prelada, é possível avistar a estátua do antigo Bispo do Porto - D. António Augusto de Castro Meireles. Da autoria do escultor Henrique Moreira com oficina nos Guindais, foi erguida em 1955 e serve para homenagear a criação da paróquia do Carvalhido.


Estátua do Bispo do Porto D. António Augusto de Castro Meireles. Fonte: Google Maps
Pirâmides da Quinta da Prelada atualmente no Passeio Alegre. Fonte: PortoJoFotos

Ao mesmo tempo, embora fisicamente não seja possível demonstrar, aqui estavam posicionadas duas pirâmides em jeito de obelisco que tinham como objetivo marcar o início da quinta da Prelada que se estendia por vários hectares em direção a norte. Em 1937, estes monumentos são levados para o jardim do Passeio Alegre devido à pressão urbanística que se fazia sentir na altura.



Casa da Quinta da Prelada. Fonte: 5minutosdearte

Relativamente à Quinta da Prelada, esta era uma propriedade de dimensão bastante assinalável com uma mata densa onde habitavam animais selvagens de grande porte. Por isso era frequente as caçadas. Desenhada por Nicolau Nasoni entre 1743 e 1748, foi o maior projeto de arquitetura paisagística do italiano. Dentro da quinta, é possível encontrar uma casa senhorial da família dos Noronha de Menezes ligada à casa real. Embora este grande projeto do artista italiano ter sido único na sua longa obra é de notar que a casa está inacabada apresentando só uma torre (ao contrário do palácio do Freixo do mesmo arquiteto).



Edifício Invicta Film. Fonte: PortoJoFotos

Simultaneamente, já no século XX, este local foi lugar de uma produtora de cinema e uma fábrica de acabamentos. A primeira chamava-se Invicta Film. Alfredo Nunes de Mattos era o gerente-técnico e Henrique Ferreira Alegria o diretor artístico. Esta empresa inicialmente dedicava-se a fitas de propaganda nacional e de reportagem como é o caso da cobertura/documentário do naufrágio do navio Veronese em fevereiro de 1913 na Boa Nova em Leça. Já com as instalações (estúdios, laboratórios e escritórios) aqui na Prelada, em 1920, dedicou-se a longas-metragens. Em associação com a produtora famosa francesa Pathé-Fréres, concebeu filmes como “Frei Bonifácio” de 1918 ou a “Rosa do Adro” de 1919.


nterior da Fábrica de Acabamentos do Carvalhido. Fonte: Espolio Fotográfico Português

No final da década de 20, devido a dificuldades financeiras, a empresa encerra atividade tendo as instalações sido adquiridas por Fonseca e Faria ltd criando aí a Fábrica de Acabamentos do Carvalhido. Esta empresa têxtil que trabalhava com tinturaria, estamparia e acabamentos encerra em 1969.




Por último, é de mencionar a Sonoscopia – Associação Cultural. Esta associação criada em 2011, é um ponto de atração no que diz respeito à música experimental e investigação sonora. Tem uma programação constante e sustentável, dando igualmente uma grande importância a atividades educacionais.


No cruzamento da rua Oliveira Monteiro com a rua 9 de Julho, é possível encontrar o Cruzeiro da Senhora do Padrão. Foi erguido em 1738 para homenagear a devoção e dedicação dos peregrinos que caminhavam até Santiago de Compostela. Em 1993, foi classificado como interesse municipal e em 2000 retirada uma estrutura de pedra que envolvia este Cruzeiro no sentido de a proteger.


Na base é possível visualizar uma inscrição que diz: "Louvado seja os tempos de valores virtude lisura ozias."

Cruzeiro da Senhora do Padrão

Mais a baixo deparamo-nos com a Quinta Amarela. É de registar o relevo histórico desta propriedade nesta zona da cidade. Esta Quinta Amarela está situada na rua Oliveira Monteiro, mas até à construção deste arruamento, segunda metade do séc XIX, esteve conectada à rua 9 de Julho.


Durante o Cerco do Porto foi ocupada pelos Miguelistas. Em resposta os liberais decidiram invadir a quinta pegando fogo à casa acabando por expulsar os absolutistas.

Teve vários proprietários e, cerca de 100 anos mais tarde, em 1921, a Faculdade de Letras da Universidade do Porto foi transferida para estas instalações.


No seguimento da 1ª Guerra Mundial, a Junta Patriótica do Norte – criada com o objetivo de prestar auxílio às vítimas e de glorificar a presença portuguesa neste grande conflito armado - com a necessidade de ver aumentada a capacidade das suas instalações, em 1934, transfere para este local a Casa dos Filhos dos Soldados, vinda da rua da Cedofeita.

Em 1938, a Liga dos Combatentes – associação de militares e ex-militares portugueses – adquire a quinta.


Hoje em dia, é um Complexo Social agregado a esta Liga que é constituído por uma creche, jardim de infância e residência sénior.


Fotografia aérea atual da Quinta Amarela. Fonte: Porto de Antanho


Fachada do edifício do antigo Matadouro Público municipal. Fonte: Porto de Antanho

Por último, não menos importantes, ficam dois pontos de interesse.

O antigo matadouro municipal foi edificado em 1844 aquando do término da construção da rua Serpa Pinto que ligava este à Ramada Alta. Até entrar em atividade estava em funcionamento o das Fontainhas mas devido ao mau cheiro e à higiene optou-se pela utilização deste.




Com a finalidade de levar água ao centro da idade, é de relevar o aqueduto de Paranhos que tinha início na Arca d’água, passava pelo matadouro e subia pela rua Serpa Pinto. Em consequência, esta zona foi bastante abastada do ponto de vista de extração de água para utilização diária, e, prova disso, são as várias fontes que se podiam encontrar nas proximidades. Exemplos serão as fontes interior e exterior do matadouro; a fonte da Natária na rua com o mesmo nome e a fonte da rua 9 de Julho, construída em 1770.


Fonte 9 de Julho. Fonte: O Porto e água

Mário Rocha | Contentor

©2020 by Porto Secret Spots.